Uma investigação que durou cerca de três meses levou a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) a desarticular parte de uma organização criminosa responsável pelo transporte, armazenamento e distribuição de drogas em Manaus. A operação, coordenada pelo Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), resultou na apreensão de quase uma tonelada de entorpecentes, armas, munições, veículos, dinheiro e outros bens, além da prisão de cinco suspeitos.
A ação, realizada na última sexta-feira (24/7), também foi marcada pela morte do investigador Luciano Carvalho de Sena, de 44 anos, atingido por um disparo durante abordagem aos suspeitos.
Durante coletiva nesta segunda-feira (27/7), o delegado-geral da Polícia Civil, Bruno Fraga, destacou que a corporação enfrentou uma das semanas mais difíceis de sua história em razão da morte do investigador, mas ressaltou que o trabalho continuou até a identificação e prisão dos envolvidos. “Perdemos um herói, o Luciano, durante a sua missão, doando a sua vida para que a sociedade do Amazonas tivesse paz”, afirmou.

Carregamento veio da fronteira
Segundo a investigação, o grupo criminoso recebia grandes carregamentos de drogas vindos da região de fronteira por rotas fluviais.
“A organização mantinha uma sofisticada estrutura logística para armazenar e escoar a droga, utilizando imóveis de alto padrão para dificultar a ação policial. Parte do entorpecente era distribuída em Manaus, enquanto outra parcela seguia para outros estados e até para o exterior”, explicou o delegado-geral.
As equipes identificaram que o principal depósito funcionava em uma residência localizada no condomínio Quinta das Marinas, onde foram encontrados cerca de 840 quilos de drogas.
“No imóvel também foram encontrados brinquedos, bicicletas e objetos infantis. Uma mulher grávida, companheira de um dos investigados, morava na residência. Todo esse entorpecente estava dentro dessa casa em que ela residia. Havia ainda alguns brinquedos, bicicleta e carrinhos, já que uma criança convivia naquele ambiente”, contou o delegado Bruno Fraga.
Outros 160 quilos já haviam sido apreendidos durante a entrega monitorada pelos investigadores, totalizando aproximadamente uma tonelada de entorpecentes. Na ocasião, o investigador Luciano Carvalho de Sena morreu em confronto com os suspeitos.
Além da droga, a operação resultou na apreensão de cerca de R$ 160 mil em dinheiro, dois veículos, armas, munições, joias, celulares e documentos. O valor em espécie ainda passará por conferência oficial. A investigação aponta que os suspeitos ostentavam patrimônio incompatível com a renda declarada, adquirido, segundo a polícia, com recursos provenientes do tráfico de drogas.

Relembre o caso
O investigador Luciano Carvalho de Sena foi atingido por um disparo no pescoço durante a ação e morreu após ser socorrido ao Serviço de Pronto Atendimento (SPA) Alvorada. A companheira do principal suspeito, Mayara Silva da Silva, presa no mesmo dia, confirmou em depoimento que Rafael Pereira Freitas efetuou o disparo contra o policial.
Conforme o delegado da Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS), Ricardo Cunha, seis pessoas foram diretamente relacionadas ao caso. Um morreu e cinco estão presos.
Rafael Pereira Freitas, apontado como autor do disparo que matou o investigador, foi localizado posteriormente em uma propriedade próxima ao município de Itacoatiara. Segundo o coordenador da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), delegado Juan Valério, os policiais atravessaram cerca de 1,5 quilômetro de mata fechada com auxílio de equipamentos de visão noturna e drones, além de rastejarem aproximadamente 400 metros até cercar o imóvel.
“O suspeito reagiu à abordagem atirando contra os agentes e acabou baleado. Ele atirou contra as equipes da Core, e ele foi alvejado. Ainda tentamos prestar socorro, levamos ao hospital de Itacoatiara, e ele acabou vindo a óbito”, informou o coordenador da Core.

Policial fazia escolta de drogas
Outro ponto destacado pela Polícia Civil foi a prisão de um cabo da Polícia Militar investigado por integrar a estrutura da organização criminosa. Segundo Rodrigo Torres, diretor do Denarc, o militar utilizava a farda para facilitar ações do grupo e teria realizado escolta armada durante entregas de drogas.
“A investigação aponta que o veículo atribuído ao policial foi identificado acompanhando o principal traficante durante o transporte dos carregamentos. Várias prisões aconteceram, incluindo a desse criminoso travestido de policial militar, onde a própria instituição não o reconhece como policial. Ele usa uma farda para cometer crimes e esse não é o papel da polícia. Repudiamos totalmente tal conduta criminosa”, declarou o delegado.
Mulher segue foragida
A operação também revelou que a irmã de Mayara Silva da Silva, presa inicialmente por tráfico de drogas, obteve prisão domiciliar durante audiência de custódia. No entanto, após recurso do Ministério Público, a decisão foi revertida.
“As equipes tentaram cumprir o novo mandado judicial, mas a investigada não foi localizada e passou a ser considerada foragida da Justiça nesse momento”, declarou Rodrigo Torres.
A Polícia Civil informou ainda que a investigação continua para identificar outros integrantes da organização, além de aprofundar a apuração sobre crimes de homicídio, tráfico de drogas, associação para o tráfico, lavagem de dinheiro e adulteração de sinal identificador de veículo.
Para Bruno Fraga, a ofensiva contra o grupo ainda está longe do fim. “Isso não acabou aqui. Não vai acabar até que o último seja preso”, concluiu o delegado-geral.








